quinta-feira, 15 de fevereiro de 2018

Efeito Sol (ido)

Era o sol que carregava os meus mundos. Mirlla não poderia entender, pois para ela o mundo era o mundo, um animal morto não seria mais do que um animal morto, ela não acreditava na cadeia da evolução. E Vicente então, não poderia ser mais do que a lua, minguando para o escuro. Sim, ele tinha um sorriso borococho e minguado, celebrado apenas nos céus tempestuosos e dentro de seu próprio carma. Como um menino cheio de vertigens, cruzei o oceano mental e simbólico. Me permitindo se perder eu disse:
- Serão belos os dias sem o sol. Eu sou a fotossíntese, eu sou a celebração. Amanhã irei acordar disposto, só preciso recuperar os arroxeados dos meus olhos.
Assim eu dormi, acabando com minhas insônias. Por que celebrar apenas a lua, se em conjunção com o sol, até os mares subconscientes eram afetados? Gostava de dormir nas noites de tempestades mentais severas.
Era o sol que acordava o meu mundo. Mirlla vinha com todo seu entusiasmo de bosta, abrindo as cortinas para mim descortinar dentro de nada. Eu abria meus olhos trazendo toda a matéria que até então era inconsciente, e pisava forte nas tábuas de madeira do chão. Ela sabia que eu tinha chorado até tarde, porque um homem pode tentar esconder sua idade mas não seus castigos emocionais temporários.
- Você precisa comer alguma coisa! Como é que vai ficar deste jeito aluado?
- Mirlla, eu não quero nada que seja sólido. O que eu quero é apenas ter um sol dentro do peito para chamar de meu!
Não é que minha ida ao banheiro fosse complexa quanto o hábito imundo de classificar as coisas, mas estava menos denso do que a água em sua forma líquida caindo da torneira, e minha cabeça rodava entre uma lajota sim e outra lajota não, com as cores ordenadas entre azul e amarelo. Passei creme dental na minha boca, esperando ter um sorriso mais branco. A passagem dos segundos era fina como o vapor. Para quê um pijama listrado escuro? A minha densidade estava vaporizada. Baixei a tampa do vaso e dei a descarga, levando um punhado de xixi transparente, estava bem de saúde segundo critérios médicos.
- Ele vem? – eu perguntei, pisando novamente nas tábuas, levantando poeira das frestas que eu nunca limpava.
- Sim, logo deve estar chegando. Não coloque uma visão sobre toda esta coisa! Ele nunca irá te amar, já deixou bem claro. Não é apenas de um, é de todos!
- Bem claro quando?
- Quando foi e não voltou – falou Mirlla, virando as costas para minha existência tardia.
- E se eu quiser ser todos?
- Mesmo assim ele não irá lhe querer, vê se entende – saiu do quarto, me deixando no claro querendo voltar e fechar as cortinas. Se ele vem então ele voltou, acabei pensando. Mas, o sol ia morrendo um pouco todos os dias.
Se ele vinha eu deveria estar em ordem, pois colocaria tudo na sequência que sempre planejei. Não me atrevi a esquecer de passar o lápis escuro sobre meus olhos, e nem deixei de rebocar minha ressaca de insônia molhada, com uma base neutra sobre o rosto. Usava a bege, número dois.
Lá fora era o lugar do meu espetáculo. Quando eu abria a porta dos fundos e dava de cara para minha horta de legumes frescos, pressentia sobre meu corpo um calafrio que vinha de terras desconhecidas. Estendia sobre a grama o meu papel físico, tentando clarear minha pele com o sol que era barrado por um milhão e meio de folhas da minha árvore preferida (aquela fabricada com flores como efeito de decoração).
Na rajada de vento que vinha do vizinho, sentia seu cheiro pelas redondezas. Era aquele perfume enjoado, de mau gosto, que tanto amei nas minhas páginas de um outro capítulo. Estavam preocupados com minha recente necessidade de tentar tomar comprimidos a mais para dormir. Era por isso que ele vinha até mim?
- Cadê o seu sol? – pedi para meu canteiro de flores, como se pedisse para uma versão mais fixa, esverdeada e cheirosa de Vicente.
Como um canteiro, nada me respondeu e acabei falecendo sobre um mar de objetos delineados, como numa animação que sempre assistia na televisão da minha infância.
- Ele chegou. Posso pedir que ele venha aqui ou o encontrará na sala? – Não havia reparado na súbita presença de Mirlla, que me observava da janela da cozinha com todos os seus silêncios comedidos.
- Quero ir para o sol. Aqui atrás não me escondo de Deus. Aqui fora ele não me engana com nada – disse para Mirlla, que se tornava cada vez mais um borrão escuro e menos um personagem.
Não bastava o vapor dos segundos, eu via subir um vapor quente do chão. A terra toda era feita de segundos perdidos para o espaço atemporal. Meus olhos não sabiam porque as rosas do meu jardim tinham tantos espinhos. Sabe-se lá porque queria Vicente tão perto. Eu poderia me sujeitar a ser todo mundo, estava aprendendo a me transformar na não matéria. Caminhei até a beira da piscina e o esperei, com minha cabeça ardida pelo calor que vem do céu.
- Você está bem? Não diga que tentou se matar por minha causa?
- Não se dê tanta importância e mérito – nunca mais olharia para os olhos dele.
- Está indo as suas consultas? – ele perguntava e eu apenas sentia a sensação de estar com um sol despedaçado – E como foi? – Continuava me questionando, esperando que confirmasse o que todo mundo já esperava saber. Eu acenei positivamente a cabeça, porque sempre soube que o silêncio machucava muito mais do que um coração partido. E deitei com as costas para baixo, escondendo meu rosto cheio de marcas, para não vomitar sobre o que ele representava quanto homem. Eu deveria responder, por ter empatia, então disse:
- O que te importa? Para alguém que não quer saber de mim, que diz que não me ama, você quer saber muito sobre minha vida... Vive tentando mostrar e justificar o injustificável...
Ele virou a cara, disse que eu vociferava palavras e agressões, e tentava argumentar de uma forma precária. Assim foi embora me deixando com um punhado de flores amargas, que precisavam ser cortadas até pela raiz. Aquela piscina estava funda o suficiente para mim mergulhar sem volta?
A presença de Mirlla era incômoda. Já havia a destruído de inúmeras formas. Era como se ela não pudesse ir e ficasse cada vez mais sobre meus pés, com aquela roupa florida ridícula, fazendo um papel de guarda-costas do diabo. Gritava frequentemente um “vai para o inferno”, sabendo que era eu que gostaria de estar por lá. Ela veio depois de horas com seus sucos coloridos e um punhado daqueles remédios que me obrigavam a tomar por ser um ser humano suicida. Eu ainda podia me cortar com minhas próprias unhas se quisesse, mas ela ficava lá parada com seus andares de altura.
- Você não pode simplesmente estacionar o seu carro em uma vaga para pessoas com complexo de Peter Pan – odiava o senso de ironia elaborado daquela bruxa. Parei e respirei, e educadamente sorrindo disse:
- Foda-se!
Ela me olhou assustada, virando para o meu lado de cara fechada. Como quem conspira contra meus poucos minutos de felicidade, tive que ouvir um:
- Deveria ter dito isso para o Vicente, não para qualquer um que queira apenas lhe ajudar – seus olhos enchiam constantemente de chuvas.
Respirei novamente e respondi sem cogitar:
- Desce do carro! Me deixa capotar no meu próprio universo – Ela não mexeu nenhum músculo, me deixando cada vez mais irritado com o sol naquela tarde estúpida de um domingo de lugar nenhum.
- Para com isto! Só você que não percebeu que não tem fundamento? Só você não percebeu que isso é chato, injustificável, que essa vingança não leva você a nada? O que você ganha, me diga? Vai, não fica parado aí com esta cara de trouxa, abra a boca e me fale... Você acha que isso tudo ainda tem sentido?
Não conseguia olhar para Mirlla. Ficava de cabeça baixa vendo o mundo que construí desabar. Não tinha o que discutir, aquilo tudo não era eu, mas meu ego que falava alto. Machucar alguém estava me machucando, e doía tanto saber que aquilo não era eu. Eu queria que doesse nele, queria que ele sentisse tudo na pele. Mas e se fosse na minha pele? E se doesse dentro de mim? O que estava fazendo? Eu não conseguia ser aquilo tudo que eu não era. Não tinha nada de especial em mim, quem não teria vergonha do que eu representava?
- Eu não teria vergonha – disse para mim mesmo, deixando Mirlla sem entender.
Acabei sorrindo, um daqueles sorrisos que a gente dá quando não tem mais nada a perder, quando até os dentes estão molhados com água salgada que sai da alma e brota dos olhos, criando rios de sentimentos líquidos. Eu tinha o sol, e talvez o sol que vinha de mim poderia quebrar um ciclo. Me recuperei e dei as costas, deixando Mirlla para trás falando sozinha. Vicente? Colori na lembrança, ele não precisava de mim como eu não precisava dele, não éramos da mesma cadeia alimentar. Sim, olhando para o mundo eu percebi: não precisava ferir se estava ferido, não precisava fazer sangrar quem gostava de me ver sangrando. Este foi o dia que eu, poeticamente sumi. E sumindo eu fui capaz de entender que o sol não vai embora, tantos séculos que ele brilha sem nenhum motivo. O sol não vai embora porque não tem para onde ir. Não existe dentro ou fora. Existe uma coisa só, e essa coisa não sou eu, o "eu poético". Então sai do eu e vai para o mundo. Eu sei que doeu, mas sai do eu.
Indo pela porta da frente calmamente, eu vi a rua e me virei para o sol, passei as mãos sobre meus cabelos e pensei: sim, eu sou foda para caralho! E ponto. Daquele dia em diante não aceitava mais ser estuprado por palavras, sentimentos e ações. Eu era mais do que um corpo disposto ao sol. Sol demais machucava os olhos e não fazia bem para a minha saúde. Eu não era mais gasoso, estava sólido novamente.

By: Vinicius Osterer, Fevereiro de 2018 - Livro: Estupro Coletivo

quinta-feira, 8 de fevereiro de 2018

Gemini

Não fiquei preso na barreira dos seus olhos escuros. Já estava preso há algum tempo dentro de um universo não beijado, que não era poesia e nem mesmo qualquer uma das tantas porcarias que já senti quando enchi uma folha de caderno ou um livro.
Tenho a vontade de gritar milhares de vezes as palavras porra e caralho, porque não é estar preso na barreira dos seus olhos, mas transpassar e me sentir livre, no suspense todo onde não habitam mais as palavras. Neste maldito silêncio...
Não vou falar com metáforas sobre o peso do silêncio, de quando volto comigo mesmo para casa, cheio de sua ausência. Talvez seja uma maneira de entender com mais clareza a sua metáfora, onde depois eu disse:  
- Não corte a árvore. O erro não é dela. O erro é do mundo que exige que ela dê frutos em todas as estações...
E esse tem sido um problema. Querer todas as folhas, frutos, flores e ramificações da sua presença todo segundo, quando seu queixo está sobre meu pescoço com seu rosto rosado, perdendo a noção do que é o tempo lá de fora. É difícil escrever para uma pessoa real e não idealizada.
Sim é sobre ti. Sobre ti quando o peito dispara, e eu fico calado como um imbecil que sou. Quando a ausência das palavras chega e fico olhando pela lateral, seu sorriso expressivo como uma placa luminosa cheia de sol. Sobre ti e o seu lindo jeito de calar a minha boca, com palavras imprevisíveis que me deixam extasiado...
Querer se molhar com a doçura de seus gestos e pegar uma gripe, não é castigo. Querer sentir tudo que nunca havia e nem pensei ter sentido, quando vejo sua presença tão sólida para meu material inflamável, passou a ser o meu abrigo. Seria cedo para dizer qualquer coisa?
Te colocar acima não é loucura, é um resultado. Não um resultado qualquer, de uma operação matemática. Contigo eu paro no tempo. Contigo nada mais me importa. Estou errado? Castor e Pollux....
É toda a sua maneira de encarar a vida, que não é pouca. A vida toda que tem a sua altura exata, nem mais e nem menos. O jeito todo de quando sinto que posso fazer acrobacias na minha cabeça, quando falo “como você está se sentindo?” e você responde “Eu não sei”. Não saber é um paraíso. Eu repouso em ti quando adormeço descalço.
Poder morder os seus lábios que me calam, quando perco a razão em demasia, quando sei que não caibo dentro de nada. Você bem mais universo, talvez infinito e tantos. Eu apenas um verso simbólico e rascunhado. É permitido não tirar a imagem dos seus olhos da minha cabeça? Pois eu não desejo.
Você é um acerto. Uma questão descritiva sobre quem quero ao meu lado. Feita sem uma didática estabelecida, sem o rigor pragmático de uma metodologia clássica. Sim é sobre ti. Sobre a falta das minhas palavras. Das minhas justificativas tardias, confundidas com um cavalheirismo doentio. Do que adianta ter em mim todas as cores e as flores, se este sentimento repousa quieto e calmo?
Me afaste com um mar de tempestades, que mesmo assim lhe enfrentarei com minha jangada de cordas e galhos. Poderei dizer:
- Eu vi ele na primeira vez que colocou um sapato. Estava lindo, mas transpassei o seu olhar e me senti livre. Tão livre que o beijei me desmoronando, jogando minha existência para tudo que é dele.
Não corte a árvore, ela me faz chegar perto do céu. Seria cedo para dizer qualquer coisa? Não corte a árvore. Se não for para dar frutos, dê flores e um significado. Estou criando um dicionário inteiro para ti. Nele consta apenas o seu nome, e dentro dele tudo o que eu já aprendi e senti contigo.

Dia 08 de Fevereiro de 2018, Vinicius Osterer.

domingo, 14 de janeiro de 2018

Peito Nu

Começo pedindo desculpas, nunca fui bom assim com as palavras faladas e estava assustado com toda aquela situação. Alguém dizer para mim “Que belo peito em fogo!” “Queria comer você por completo”, minha intenção nunca foi ser um produto.
E ontem não bebi. Ontem parei e me encostei na parede, olhando para o céu que não estava lá. Então pensei: quem sou eu para reclamar! Não vi o dia e nem o céu do dia, e só era chuva por dentro.
Não lembrei de trocar a água das flores que eu tinha roubado, e em alguma parte morreu um punhado bem grande de mim junto delas. Trouxe-as para meu quarto e estou velando, enquanto tento inutilmente diminuir o barulho das teclas do computador do meu pai, porque de alguma forma acabei exterminando com o teclado do meu. Talvez é essa violência de vida que me faça bater tão forte nas letras, que tenha estragado tudo.
O anjo que eu fui, uma vez me disse:
- Que gauche, o que Vinicius. Ninguém usa essa palavra!
Mas o anjo não entendia nada de literatura brasileira.
Então não fui ser gauche na vida, e no meu caminho não havia nenhuma porcaria de uma pedra. Celebrei a simplicidade de um verso no meu universo todo ao contrário, patético e simplista. “Não diminua seu trabalho”, é o que diz a minha terapeuta. E lá vou eu mais uma vez falando porcarias sem vocabulário. A vida é pequena demais para celebrar minha desgraça. Então, que se dane...
Lá se vão as flores! Se as flores fossem cristãs iriam para o céu ou para o inferno? Vagamente me lembro das lições que um dia me deram, sobre o que é certo e errado para se fazer na vida. Que se dane... As flores escritas eram para o entretenimento, assim como eu também sou.
Peito nu. Não quero fazer o papel que me foi dado neste circo. Big-Bang-Bum. Tudo parado na avenida central, como num passe de mágica. Lentamente desfaço a minha postura rotineira, deixo a perna cair até o chão, escorregando pela parede. Vou até seus olhos parados com um eixo central de gravidade, e observo todas as cores que de longe eu nunca pude ver. São mais escuros do que eu pensava que fossem. Eu deixo tudo como eu queria, por um segundo de tempo todo meu.
As flores vermelhas acabaram com tons enegrecidos, também pudera, ainda estávamos brincando naquela noite cega. Meu peito nu e seu cabelo ao vento, mais um segundo de distração por dentro, me pego parado olhando para seu nada. Big-Bang-Bum, desfeita a magia. Não vejo o céu, você está de costas, alguém está bêbado do meu lado vomitando. A realidade? Que se dane, ela machuca...
Lá se vão as flores! E com elas de certo modo o anjo que me fez ser alguém dentro de um mapa. Introduzido pelos barulhos destas teclas malditas, neste buraco nojento. Eu grito: “Fechem as cortinas! Não quero ser o que não sou por mais nenhum momento. As flores que vão para o inferno”.
Peito nu. A nudez que ofende seus olhos. Sem contornos eu sou um borrão. Peito nu, uma nudez sem pudores, daquelas que vi no segundo de Bum dentro de seus olhos tão normais que me ofendem.
Termino pedindo desculpas, nunca fui bom com as palavras escritas e estou assustado com toda esta situação. Eu mesmo dizendo coisas que nunca fizeram sentido como “Que peito nu, cheio de flores!” e a minha intenção não era apenas ser um entretenimento barato, mas me consuma como um prato pronto de supermercado.
- Vai Vinicius, ser gauche na vida! – anjo maldito que não sabe nem o que é ser gauche. Cadê Drummond e aquela pedra? Seriam úteis na minha vida agora.

Dia 14 de Janeiro de 2018, Vinicius Osterer.

domingo, 31 de dezembro de 2017

Livro: "Predador Sexual" - Parte 13

Capítulo XII – Reforma Amária

Os homens venceram a selva, mas a selva interior ainda precisava ser vencida. O sol estava se pondo, e Leo buscava madeira em uma pilha velha, encostada ao lado da casa. Júnior estava parado na beira do lago. Apreciava o pôr do sol com a certeza de que o rio que habitava ali, saberia para onde a correnteza deveria fluir. O próprio sol interno de Júnior aplaudia o reflexo do verdadeiro astro sobre aquela imensidão de águas profundas e represadas. Leo deixou a pilha de lenha perto da entrada e foi em direção de Júnior.
- Apreciando a paisagem? – disse Leo, fazendo Júnior assustar-se com sua presença.
- Nem percebi que você estava vindo. Realmente uma bela paisagem!
- Gosto de deixar as coisas organizadas. É um favor para um amigo. Me deixa vir até aqui, fugir do mundo e por o lugar todo em ordem. Só vem no fim de ano para cá. O que parece um belo desperdício, não acha?
- Sim.
Não se tinha muito para falar em um lugar daqueles. Haveria tanta história não contada embaixo daquelas águas profundas. “O ser humano e seus estragos”, pensou Júnior. “Aquela represa era de acúmulos”, pensou Leo.
- Muito longa a viagem?
- Não Leo. E as paisagens para chegar até aqui também são incríveis, compensam um pouco as coisas!
- Sim – Leo concordou e pensou em como continuar a conversa.
Subiu até a casa, que parecia um pequeno chalé de madeira abandonado, com muitas vidraças e móveis rústicos em uma imensa área frontal cercada de flores. Abriu sua cerveja long neck e levou outra para Júnior, que parecia cada vez mais absorto em seus pensamentos. O horizonte se fazia em brasa, deixando cada vez mais os contornos do relevo enegrecidos.
- Esse lugar parece querer dizer alguma coisa, não parece Leo?
- Várias vezes parei para observar essa paisagem. Ela parece ser tão artificial, parece chorar por longas horas por tanta vida perdida. Esse monte de água que não deveria estar por aqui mas está... Chega a assustar um pouco, não é mesmo?
- Esse lugar sangra. Este lugar realmente parece que chora.
- É. Já me senti este lugar por tantas vezes...
- E quem nunca se sentiu desta maneira, Leo? Quem nunca represou águas e mais águas e perdeu tanta vida, virando uma paisagem artificial?
- Quem nunca, Júnior?
- Valentim eu apenas acho que nunca.
- Sim Valentim... – respondeu Leo, confirmando o que foi dito por Júnior.
- Sim Valentim... – Afirmou novamente Júnior, terminando suas palavras como um pensamento longo sobre determinado assunto.
- Será?
- Não sei. Quem poderá saber? – respondeu Júnior.
- É. Não nos convém saber sobre a vida dele, são águas que seguem. E há tanta coisa neste lugar, você não acha?
- A vida está em constante movimento Leo...
E ficaram parados esperando o sol ir embora, enquanto de todos os cantos ressoavam barulhos e mais barulhos selvagens. Nós não conseguimos superar os barulhos selvagens de nossa existência. Os animais diurnos se recolhiam, era a hora dos animais noturnos caçarem.
Leo e Júnior não dividiam palavras, mas as mesmas angústias e aflições da noite. Os grilos não paravam de disputar espaço com uma quantidade expressiva de teias de aranhas e vagalumes. O rio parecia cada vez mais silencioso, com águas frias e calmas. O céu estava estrelado, com mais pontos brilhantes do que o necessário. E veio a Lua, embarcando no pacote completo da escuridão e do brilho.
- Ainda tem sentimentos não realizados? – pediu Júnior para Leo, quebrando o silêncio.
- Sim. São muito bons! Fiz uma série de quadros que coloquei o nome de “O Amor Que Nunca Recebi”... Algo do gênero... Vão ser expostos agora, perto do fim de ano. Sinta-se convidado a participar da exposição!
- Claro que irei... Se não ir antes para um intercâmbio, que estou pensando em fazer.
- Intercâmbio?
- É. Conhecer alguma outra cultura, aprender outra língua e estudar cinema em outra parte do mundo. Voltar mais feliz com as coisas da vida...
- Você ama muito o que faz, não ama? Isso é muito bonito em você. Se isso lhe fizer bem, por que fugir, não é?
- Eu amo cinema. E não quero mais fugir disso. Não quero mais fugir de nada, se você consegue me entender... Não quero mais me poupar e ter medo de amar de uma forma equivocada, com receios de que as coisas não vinguem, ou me decepcionem...
- E por que não amar? Isso é tão puro, é bom saber que apesar de tanto desprezo neste mundo, tanta indiferença e rancor, ainda existem pessoas que amam. Amam o que fazem, amam outras pessoas, amam a si mesmas e amam todo este caos.
- Você não cansa de amar?
- Não. Por que cansaria? Isso é tão bom!
- Eu que sou muito frio para o romance...
- Você é perfeito! Essas sobrancelhas grossas, da cor escura de seus cabelos. Esse rosto misterioso, seu sorriso de canto... Não vejo frieza alguma... Para mim seria um personagem ideal de um livro!
- E se...
Júnior parou pela metade. Olhou para a lua que brilhava sobre os olhos de Leo, se imergiu dentro das águas profundas da sua incompreensão, e perguntou:
- Este sentimento não realizado é por mim?
- E se for por você? – perguntou Leo, fugindo com o seu olhar para a linha do horizonte.
- Leo. Eu choro demais. Eu como demais. Eu lhe daria muito trabalho.
- Mas, trabalho com afeição e sentimento deixa de ser trabalho. Para a comida e o choro se dá um jeito...
- Isso foi profundo...
- De superficialidade o mundo já está tão cheio. Tento ser um pouco mais fundo e menos raso.
- O mundo anda precisando disso. E eu também.
- Também preciso de alguém para sentir as coisas que não dão pé.
- Adoraria lhe fazer companhia, Leo...
Ambos despiram suas roupas e desnudos e sem pudores se abraçaram embaixo das constelações de estrelas. Ouvia-se o silêncio de seus corpos e a inquietação de suas mentes. E com lindos sorrisos eles se deram as mãos, e entraram nas águas profundas. E mergulharam de cabeça até faltar o ar. Dois homens que no meio do nada fizeram o tudo. Queriam a profundidade das águas frias e calmas, sem as corredeiras dos rios rasos e pedregosos. Pela manhã saiu amor, em todas as torneiras da cidade.

FIM.

UM EXCELENTE 2018! 

sexta-feira, 29 de dezembro de 2017

Livro: "Predador Sexual" - Parte 12




Capítulo XI – Sobre Vida

Eu pouco participei da vida de meus personagens depois daquele escurecer. Mas não deixei de acompanhar de longe o que faziam com suas vidas. E não me assustei com os acontecimentos que eu não governava. Porque eu não poderia criar por eles as suas próprias estórias. Havia prometido narrar com algumas licenças poéticas e não mudar os acontecimentos.
Júnior acabou perdendo o sorriso fácil do rosto, estava virando um homem de feição fechada, diligente e investigador. Tentava descobrir outros mundos dentro do cinema, da literatura e de seus trabalhos em demasia, havia cansado do mundo. Valentim em contrapartida, acabou se transformando em um homem realizado, em um lugar que agora poderia chamar de seu. Ele havia deixado de navegar dentro de sua própria incompreensão temporal, se tornando cada dia mais um homem centrado e regular.
Valkíria não deixou de ser submissa ao seu amor, havia achado alguém que a travava de igual para igual, sem permissões ou amarras. Não deixou nenhum de seus valores serem corrompidos, continuou sendo a grande mulher que sempre foi, a mesma ruiva com pensamentos soltos e atitudes baseadas na sua singularidade. E Leo, recuperou sua confiança. Havia amadurecido antes do tempo, perdido as esperanças antes do tempo, sofrido antes do tempo, sempre sendo um homem das coisas antecipadas. Sua arte o resgatava de sua própria miséria. E todo o amor que tinha, era evocado sobre pinceladas rápidas em telas cada vez mais coloridas e menos escuras. Passou a sorrir sem precisar de seus remédios. Amava sem esperar o amor de volta.
Eram um porta-retratos familiar sem vínculos genéticos, apenas vínculos afetivos. Uma família baseada no amor e respeito mútuo, sem hierarquia de poder. Todos eram pais, mães, tios, avós e filhos, em uma fotografia que nunca se deteriorou pelo passado.
- Você já pensou em tirar a sua própria vida? – perguntou Júnior para Leo.
- Já. Mas isso sempre me assustou um pouco. Estar em um momento e não estar no outro. Aquele punhado de sorrisos e coisas, que você não vai mais poder ter.
- Eu já pensei em suicídio, de tantas formas. E acho que ainda não estou tão recuperado do que aconteceu com meu pai. Nunca imaginei outra pessoa, que não fosse eu, nesta situação. Uma corda no meu pescoço, um alimento estragado, remédios para dormir. De todas as formas possíveis. Que fossem eficazes e não envolvessem sangue.
- Mas você tem a Valkíria, agora também o Valentim, e também eu...
- Isso me assusta um pouco, tenho medo de ter que deixar vocês partirem um dia. Acabam sendo meu porto seguro. Com vocês eu tenho alguma esperança ainda nas coisas.
- Que isso! Ninguém é tão perfeito e certo assim, mas ainda existem várias pessoas que valem alguma coisa por aí...
- Onde elas se escondem?
- Não quero ver você desiludido com a vida! Eu quero ver o seu sorriso que é tão bonito. Suas piadas engraçadas, e toda a sua maneira divertida de encarar os fatos. É esse homem que quero ver... Você é bonito quando é leve. Isso é apaixonante em você...
- Como se eu fosse um homem apaixonante... E é tanta coisa que tenho dentro do meu peito, dentro da minha cabeça... Tanta coisa que eu quero fazer, tanta que eu posso mostrar para o mundo. Mas eu não consigo dar o próximo passo. Eu não consigo fazer mais nada, só me perder.
- Você consegue. Claro que consegue. E quem disse que um homem precisa disso tudo? Se perder também tem seus méritos, você ao menos não ficou dando círculos no mesmo lugar. Vamos, erga essa cabeça e não se preocupe mais com essas coisas por hoje. Daqui a pouco Valkíria e Valentim chegam com nossas bebidas e aperitivos. Só precisamos dar um pouco mais de risadas, falar coisas que não fazem sentido, ouvir um pouco de música, e esquecer que existem situações para serem resolvidas ou acabadas...
- Precisava há um certo tempo falar tudo isso com alguém.
- Estarei sempre aqui para lhe ajudar e lhe ouvir. Você não está sozinho nesta!
- Posso lhe abraçar? Isso seria bom para mim agora...
- Por que não? Um abraço não machuca e nem mata...
- Eu amo a sua generosidade e a sua amizade...
Os dois se abraçaram e ficaram no silêncio. O que não se silenciava, era a mente de Leo, que repetia várias vezes as palavras “E eu amo você”. E dentro do precipício em que acabava de entrar, pediu licença para Júnior e foi até o banheiro. Ele precisava desabar e colocar para fora aquilo que mais doía dentro do seu peito.
E ele abriu a torneira da pia e não parou de chover entre aquelas quatro paredes. Estava inundando seu apartamento recém decorado. Molhou o rosto e o iluminou com um lindo sol. Os olhos azuis pareciam reflexos dentro de uma piscina, no dia de verão em que faz quarenta graus na sombra. Estava no centro de seu universo novamente.
Quando saiu do banheiro Valkíria já estava na cozinha, colocando os salgados em um pote, os molhos em outros, e Valentim ria retirando as bebidas das embalagens e colocando-as no freezer. Júnior escolhia a primeira seleção de músicas do dia, também com um sorriso tão grande e bonito. Esta então, acabou se transformando na radiografia completa do corpo interno de Leo. Abriu um sorriso verdadeiro e não forçado.
- Comprei Doritos e molhos de todos os tipos. Pensei em fazer nachos, mas sei que vocês não gostam.
- Não é não gostar Valkíria... É só não apreciar o sabor – respondeu Valentim.
- Eu até apoiaria a ideia, se nachos não tivessem pimenta – complementou Leo, saindo do banheiro e indo em direção a sala.
- Eu odeio seus nachos Valkíria.
- Nossa Júnior. Odiar é um sentimento pesado...
- Então detesto...
- Não mudou muita coisa, mas tudo bem. Amanhã de meio dia, eu e Valentim temos que contar uma grande novidade – disse Valkíria, mudando suas frases para um tom mais misterioso.
- Ai não! Começaram! Para quê ser assim? Por favor, aí ficamos a noite toda falando sobre isso e mais nada, só falando sobre vocês. Gostam disso não é mesmo?
- Gostamos sim. Quem tem brilho tem que brilhar. Mas sério, desta vez é sério Júnior.
- Não fala assim que fico assustado!
- É coisa boa.
- Melhor assim. Estou comemorando minha “solteiridão” novamente.
- Oi? – disse Leo desentendido.
- Uma mistura de solteiro com solidão Leo. Acabei de inventar esta palavra... Inventar as coisas que não existem virou moda. E como bom modista que sou, eu dito a lei.
- Agora ficou mais compreensivo! – Leo sorriu para Júnior.
E toda aquela intimidade criada entre os quatro, os faziam voltar quase sempre aos mesmos assuntos, e terminar falando sobre os mesmos fatos e pessoas, como em toda conversa de família. Valkíria ainda não havia perdido o hábito de falar precipitadamente as coisas, e acabou revelando antes do esperado:
- Estou grávida! Mas ainda não é de certeza...
- Você está o quê? – perguntou Júnior para a irmã, para obter confirmação.
- Estou grávida!
- Como assim? Meus Parabéns!!! – disse Leo – Estou muito feliz por ambos...
- Amanhã faremos o exame para ter uma conclusão mais precisa. Mas ao que tudo indica, e aos inúmeros testes de farmácia, eu serei pai... – disse Valentim enfatizando o que Valkíria acabava de anunciar.
- Nossa, nem sei o que dizer... Meus Parabéns ou Boa Sorte? – disse Júnior em um tom de humor e deboche.
- Credo Júnior! Boa Sorte... – Valkíria demonstrou não gostar do comentário.
- Gente, desculpa... Comentário desnecessário, eu sei... Mas e agora? Como vão ser as coisas? Já pensaram um pouco? Valkíria estudando, Valentim fazendo o mesmo...
- Tempo é o que não vai faltar, Júnior. Isso é pouco perto da sensação de poder fazer tudo dar certo com ele – respondeu Valentim acariciando a barriga de Valkíria – E vai ter o amor necessário para ser alguém realizado e feliz por suas escolhas. Vai poder ver a beleza onde nem sempre é tão belo assim!
- E vai ter os pais mais dedicados que existem. Se depender de mim, será o melhor ser humano deste planeta e desta galáxia! O meu filho perfeito e tão desejado... Amo ele, mesmo não estando nos meus braços... E não tendo tanta certeza assim da gravidez – Valkíria parecia embalar uma criança imaginária, com os olhos reluzentes e um sorriso já maternal.
- Temos que comemorar! A esta criança que está vindo para fortalecer ainda mais o vínculo de vocês dois, a solteiridão do Júnior e a minha primeira exposição de quadros... – disse Leo.
- Ao futuro! – todos disseram, erguendo uma taça com suco de maçã para o alto.
Depois de algumas músicas e mais conversas jogadas fora, Valkíria e Valentim voltaram para casa, já era tarde e precisavam acordar cedo. Se despediram como de costume, e saíram entre risadas e piadas feitas anteriormente.
Júnior e Leo haviam decidido acabar com a bebida, já que Valkíria não bebeu e Valentim tomou apenas uma cerveja. E eu como narradora, bebendo meu café forte, e batendo as teclas da minha velha máquina de escrever. Até pensei: “como nós escritores (se posso me autodenominar assim) somos tão enxeridos, nos intrometendo nos assuntos alheios, pensando em coisas que não deveríamos. Pior ainda, pensando várias vezes pelas pessoas da estória. Não cometemos equívocos literários?”
- Claro que cometem! – disse Júnior.
- Não Júnior, eles já estão muito bem estruturados, e uma criança só vai fortalecer ainda mais o amor dos dois. Não estão cometendo um erro...
Júnior foi até a sacada com a bebida na mão, nunca gostou de ser contrariado. Se deixou escapar dentro do mundo de seus pensamentos, não percebendo que Leo se aproximava e observava seu rosto apático.
- Não se preocupe. Você nunca vai ficar sozinho. Esse filho é muito importante para ambos. Vai amadurecer a cabeça dos dois, vai mudar um pouco as coisas entre todos nós, trazer um pouco a mais de vida após tudo que aconteceu com a sua família!
- É aquele medo, você sabe. De perder tudo isso... Vocês... E agora, estou precisando de apoio. Quero decidir minha vida... O que vai acontecer de agora em diante... E essa criança...
- O que vai acontecer eu não sei. Nem sabia que um dia poderia amar a notícia que o Valentim seria pai... E tudo isso sem me sentir deixado de lado, com os sentimentos menosprezados e não realizados... Acabei dando seguimento, um pé atrás do outro. E quando acordei havia acontecido tudo novamente. Por que seria diferente com você?
- Acontecido tudo novamente? – Júnior fixou sua atenção para estas palavras e se voltou para Leo.
- É. Amar outra pessoa novamente.
- Até você se resolvendo e eu aqui com meus tantos dramas. E como gosto de fazer drama!
- Você não faz drama, você faz Wolf. É diferente... Além do que, não está nem um pouco resolvido. Esse punhado de quadros é para ele. Esse sorriso no meu rosto também. Mas não tenho tanta sorte assim. Ele não me quer como outra coisa. Ele me quer como um amigo.
- As coisas ficam complicadas, não é mesmo?
- Sim. Desculpa se agi como um estranho nestes dias, não estava em mim... Mas obrigado por me inspirar a conhecer um lado de mim que eu não conhecia. Sempre lhe desejarei o melhor, você me fez parar de tomar remédios para dormir, se posso lhe confessar. Muito obrigado! E acho você espetacular, do jeito que você é! Nunca mude por ninguém...
- Obrigado amigo, você também é super incrível, continue assim...
Mesmo decepcionado com a resposta, esperando que Júnior fosse um pouco mais objetivo sobre seus sentimentos, Leo acabou o convidando para a sua fuga pessoal dos problemas, restabelecendo a continuidade da conversa:
- Não quer fugir um pouco desta rotina diária? Respirar um ar puro, e amanhã ir comigo para a casa de um amigo no meio do nada? Vai lhe fazer bem...
- No meio do mato você quis dizer, não é? Sem celular e todas essas coisas? – Júnior passava por um período de negação, sempre indo contra tudo.
- Estarei indo amanhã no fim da tarde. Vou passar só o domingo por lá, enquanto reformam a minha cozinha. Tenho que trabalhar na segunda. Se pensar um pouco mais na ideia, só vir aqui perto das três da tarde – Leo nunca tinha sido bom para insistir nas possibilidades, e Júnior se assustou um pouco com sua grosseria.
- Ah! Sim – disse Júnior.
- Não quero ir tão cedo e nem tão tarde. Quero pegar o pôr do sol do campo.
- Vou pensar e qualquer coisa lhe aviso. Não seria uma má ideia fugir de tudo isso. Mas por hoje preciso ir dormir, estou com muito sono. Lhe ajudo a arrumar as coisas e vou para casa.
- Sem problemas. Eu limpo amanhã de manhã...
- Não, eu faço questão de ajudar. Até porque a ideia, dessa coisa de hoje foi toda minha. Nada mais justo. E sobre amanhã, sabe que eu decido tudo em cima da hora...
Júnior ajudou Leo a limpar a bagunça, se despediu e foi para casa. Subiu dois andares pensando no que havia acabado de ouvir: “ele estava amando outra pessoa”.
Leo sentou no sofá da sala, ligou a televisão e chorou. Sabia que estava embarcando sozinho, dentro de um sentimento que não teria mais volta. E amaria mesmo sem ser amado. Elevaria Júnior ao patamar mais alto da sua existência, sacrificando seu amor próprio por este sentimento. O amor sempre acabou sendo muita coisa na sua vida, e agora Júnior também passava a ser. Júnior era um belo afresco de tinta a óleo. Então parou de chorar e preparou os seus pincéis.
Depois de toda infestação de lágrimas da madrugada, e da confirmação da gravidez de Valkíria, Valentim resolveu preparar um grande almoço de comemoração e inauguração da casa nova. Convidou Leonardo e os amigos mais próximos. Leo pediu desculpas pelo telefone, passaria durante a semana para parabenizar o casal e conhecer o novo espaço, estava atarefado em pleno sábado de meio dia.
Júnior acordou com o barulho do telefone, ouviu da sala conversas aleatórias no corredor e resolveu levantar, seu primeiro dia sozinho no apartamento. Colocou qualquer roupa e se deparou com um punhado de pessoas buscando caixas na sala, lembrou da mudança e do almoço em um sábado chuvoso fora de casa.
Depois de ajudar a levar as coisas até a garagem, pegou carona e foi até a nova casa de Valkíria. Eu também estava lá, fui convidada juntamente com meu filho Carlos, que não pode aparecer por estar na casa de sua tia do interior (ele precisava colocar a cabeça em ordem depois do fiasco em frente do condomínio). Resolvi ir, pois Valkíria já era como alguém da minha família. Na sala haviam mais dois casais, pelo que averiguei estudavam com Valkíria e Valentim, eram amigos de curta data, mas muito simpáticos e afeiçoados.
- Se conhecem há algum tempo? – pedi.
- Sim. Não muito para falar a verdade. Mas tem como não gostar deles? – respondeu a mais inquieta do grupo, com cabelo escuro e enrolado que ia até a altura dos ombros.
Depois do almoço se despedimos e fomos para casa, Valentim me acompanhou até a porta e resolveu me dar carona, estava indo comprar tinta para acabar de pintar a sala. A notícia que eles teriam um filho deixou todos animados, exceto Júnior, que não conseguia disfarçar o incômodo que sentia pela confirmação da gravidez. Valkíria, aproveitando que Valentim havia saído, sentou próxima do seu irmão, sendo clara e direta como de costume:
- Não está feliz com a minha gravidez por quê?
- Oi? Quem disse isso?
- Não tem como não perceber. Você não esconde nada de mim, se lembra? Eu que disse para a mamãe que você era gay, ainda antes de você se assumir por completo.
- Sim... Sim... Não é não estar feliz. As coisas estão muito boas para todo mundo. Mas tenho medo de perder tudo isso. Tenho medo de, sei lá...
- Você nunca vai perder nada disso! Eu vou continuar sendo sua irmã, fazendo meus shows no SeaWorld, Valentim continuará sendo o Romeu moderno, Leo o lobo solitário. Todos sempre estaremos aqui... É novo tudo isso? Sim, é novo! Mas não tenha medo de se permitir a viver novas felicidades, com novas pessoas, por que não? Se permita a viver o que é bom!
- Porque sei lá Valkíria. O mundo é tão grosseiro, é tão nojento e...
- Não. Sem esse papo Júnior. O mundo é aquilo que você acha que ele é. Pode ser um lugar espetacular, pode ser um lugar maravilhoso, um lugar onde as coisas acontecem... Mas isso tudo só depende de uma coisa: da perspectiva que você olha para ele. Então pare de ver problemas nas soluções! Pare de achar que as coisas não estão dando certo! Olha para você: tão jovem, tão bonito, com pessoas que lhe amam de verdade...
- E se as coisas não derem certo para mim?
- Já olhou para os lados! Você tem um teto sobre sua cabeça, faz o curso que sempre sonhou na sua vida, tem liberdade para fazer e desfazer qualquer coisa... Você é perfeito, você é um ser humano admirável! Não se limite dentro deste pensamento do “e se...”
- Quantas vezes já lhe disse que você tem razão?
- Nenhuma, mas desta vez tenho. E quantas vezes ainda vou ter que dizer para você perder o medo de ser feliz? Perder o medo de arriscar? Perder o medo de por expectativas?
- Estou feliz sim pelo seu filho ou filha, Valkíria...
- Não é apenas meu!
- E do Valentim, sim é claro. E realmente acho que só preciso por em ordem a minha cabeça. Só preciso dar um tempo de tudo que me cerca, até de mim mesmo.
- É bom às vezes fugir das coisas. Fugir sempre, é que se torna um equívoco.
- Falando nisso, que horas são?
- Duas e pouquinho.... Por quê?
- Vou ir viajar com Leo. Espairecer um pouco e respirar ar puro. Pronto, está decidido!
- Sou totalmente a favor!
- Quem sabe neste fim de semana fora, eu volte um pouco mais renovado!
- Vocês dois tem tanto em comum. Vai fazer bem para você!
- Vão pintar de que cor a parede da sala? – Júnior mudou de assunto.
- Uma cor neutra. Nosso fim de semana vai render...
- Se comportem... Não façam nada que eu não faria... Quer dizer, façam!
- Bobinho... Não precisamos só disso não, viu? Só de estar perto dele já me sinto muito realizada...
- Ai que nojo! Vou arrumar algumas coisas rapidamente em casa e ir no Leo. Ele disse três da tarde e já é quase isso! Vou mandar um recado avisando que ainda estou aqui, assim me espera um pouco...
Júnior arrumou uma pequena mala com suas coisas pessoais e duas mudas de roupa. Cogitou em levar a sua câmera, mas desistiu da ideia. Precisava de um tempo longe de seus projetos cinematográficos. Desceu até Leo que já o esperava na sala, com as coisas arrumadas para partir.
Valentim chegou com a tinta, entusiasmado com o passatempo da tarde, procurou Valkíria para mostrar a cor que tinha comprado, ela estava na cama, deitada lendo um livro.
- E o Júnior?
- Foi viajar, espairecer com o Léo em um sítio do interior. Léo está reformando a cozinha se lembra? Ele disse que ia viajar...
- Ah sim! O que você acha desta cor?
- Bonita.
- Quanto desânimo. O que aconteceu?
- É o Júnior. Estou preocupada com ele.
- Preocupada?
- Ele não está bem. Depois do que aconteceu com meu pai, que ele se decepcionou com o Carlos, ele não é mais o mesmo. Ele está precisando de ajuda.
- Ele está crescendo, Valkíria. Ele está ficando mais velho, mais consciente da vida. E é bom ele encarar um pouco esse lado trágico, você não acha? Não existe nada que mude mais alguém do que a decepção. Viver em uma sociedade da comédia é um crime. Ninguém precisa estar feliz o tempo todo...
- Eu sei. É que pensava que ele estaria mais entusiasmado com a ideia de ser tio, de ter uma criança pelo caminho, de ter um espaço só dele. Tenho medo que ele se perca...
- Não precisa ter medo. Alguém como ele até pode se perder, mas sempre acha a rota novamente. Não existe nada neste mundo que apague o brilho do Júnior. Você bem sabe disso. São muito parecidos. Ele vai aceitar este fato. Só está decepcionado com a vida dele agora. Não significa que precise de ajuda, que esteja mal. Acho que ele sente que irá perder um pouco da gente...
- Sim, me disse isso hoje...
- Ele vai se dar conta que não irá perder. Nós iremos continuar sendo as mesmas pessoas, não iremos?
- Claro que sim.
- Nos amando desta mesma forma?
- Sim. E de que outra forma poderíamos nos amar? Não existe um dia na minha vida em que me arrependa do que nos aconteceu, desde aquele dia na academia.
- Em que você veio brigar comigo?
- Sim, e você estava com seu uniforme, com uma cara séria, e com um tênis que já nem usa mais.
- Estava?
- Sim – ela respondeu sorrindo.
- E não existe nenhum dia na minha vida que eu não queira estar do seu lado.
- Eu sempre quis um filho, para mostrar para ele essas coisas boas que a vida tem... Esses sentimentos que perduram anos e mais anos e não diminuem, a felicidade de poder escolher uma cor para pintar a sala, da mesma forma que observo seus olhos e me sinto segura. Me sinto livre para te amar da minha forma. Sabendo que não preciso fazer seus caprichos, não preciso me submeter ao que eu não quero. Posso sonhar, posso ser uma mulher realizada em casa, no trabalho, no amor, na cama, na vida...
- E eu te amo ainda mais por me aceitar na minha totalidade, sem perguntas e questionamentos. Querendo estar com o Valentim que é correto, o Valentim que é humano. Não com um Valentim que não existe...
- Gosto do Valentim incorreto também... Gosto de ser a sua presa noturna... Gosto até do inexistente em você.
- Quem sabe você não é apenas minha presa, é também minha predadora e a minha própria inexistência.
- Olha o que você faz comigo... Fico com as pernas bambas... Idiota...
- Hahahahahahahahaha... Evasiva...
- Bem eu né Valentim? Bem eu...
- Quero você para o resto da minha vida. Nem que minha vida acabe aqui e agora. Tem certeza que nós não iremos mudar?
- Posso garantir por mim que não. Não posso garantir por você nada.
- Eu garanto também que não, meu amor. Vamos terminar de reformar a casa?
- Vamos é reformar as nossas vidas!